Eu sou o cara das muitas tabelas no Excel, então não resisto a enxergar equações e padrões mesmo nos sentimentos. E analisando a cadeia hereditária dos meus relacionamentos, verifico que existe um momento bastante especial, que é quando se começa a usar a palavra "bobo".
Repara: quando você chama quem você gosta de "bobo" - normalmente sorrindo e fazendo "não" com a cabeça -, a intenção não é criticar ou recriminar. Pelo contrário, é para dizer o quanto você gosta do jeito que ele presta atenção em você, inclusive nos seus defeitos e "bobeiras".
Pra mim, "bobo" antecede o "eu te amo". Pra mim, chamou de "bobo" tá namorando.
10 de novembro de 2009
1 de novembro de 2009
Deixa o verão pra mais tarde
Eu não sei. Às vezes fico pensando que sou picareta, farsante, que não faço nada muito direito. Que talvez a vontade de me entregar de vez à languidez me impeça de ser bom em qualquer atividade prática. Um julgamento duro, é verdade.
Por isso me perguntei no que eu sou realmente bom. O que eu faço, que atividade eu realizo que tenho coragem de encher o peito e dizer "sim, eu sou bom nisso". De imediato, me ocorreram duas:
1 - Digitar. Eu digito muito bem! Conheço poucas pessoas que concorrem comigo nessa matéria. Digito rápido, de forma precisa e sem olhar pro teclado. Um arraso!
2 - Mais difícil de definir, a segunda atividade em que me destaco está no seguinte verso de "Ask me", dos Smiths: "Spending warm summer days indoors".
Para exasperação de alguns amigos e pretês, devo ser um dos campeões mundiais de gostar de ficar em casa. Enclausurado. Quieto. Dias e dias. Não sinto falta de dar uma volta na rua, nem de sentir o sol ele mesmo.
***
Aproveito para dizer que a sua companhia é a minha fonte máxima de calor e luz. Preciso de sol, não.
Por isso me perguntei no que eu sou realmente bom. O que eu faço, que atividade eu realizo que tenho coragem de encher o peito e dizer "sim, eu sou bom nisso". De imediato, me ocorreram duas:
1 - Digitar. Eu digito muito bem! Conheço poucas pessoas que concorrem comigo nessa matéria. Digito rápido, de forma precisa e sem olhar pro teclado. Um arraso!
2 - Mais difícil de definir, a segunda atividade em que me destaco está no seguinte verso de "Ask me", dos Smiths: "Spending warm summer days indoors".
Para exasperação de alguns amigos e pretês, devo ser um dos campeões mundiais de gostar de ficar em casa. Enclausurado. Quieto. Dias e dias. Não sinto falta de dar uma volta na rua, nem de sentir o sol ele mesmo.
***
Aproveito para dizer que a sua companhia é a minha fonte máxima de calor e luz. Preciso de sol, não.
21 de outubro de 2009
Vila
Hoje voltando do trabalho tive uma fantasia sobre você: nela eu abria a porta de casa e te encontrava me esperando impaciente.
Eu te dava um abraço muito forte, deitava no seu colo e fundia minha existência na sua.
Eu te dava um abraço muito forte, deitava no seu colo e fundia minha existência na sua.
10 de outubro de 2009
Cristiano

Estava assim - belíssimo - esperando um Monsieur vir ao meu encontro no hall do hotel que, dizem, é o melhor da cidade.
Desde que vim pro Pays Éwé, tenho encarado longas esperas. Me dedico então a um passatempo viciante: jogar Nibbles no celular. Nibbles é o "jogo da cobrinha". É você num cercadinho, comendo frutas que aumentam seu tamanho e se virando para evitar as paredes. É um jogo clássico, como o Tetris.
Estou craque nisso. De modo geral, sou bom em videogame (que solitário não é?). O fato é que cheguei à quinta e última fase do Nibbles em pleno hall desse hotel à beira da praia em Lomé. E vendo a cobrinha navegar na tela do celular, despenquei por instantes no abismo da memória.
Conheci o Nibbles em 98, primeiro ano da faculdade, na USP. Não sei você, mas escola em geral é aquela chatice de sempre: uma ou outra aula incrível para um monte dispensável de disciplinas. Por isso, meu amigo Cristiano um dia me conduziu ao laboratório de informática, a um XT velhinho esquecido num canto, mas que continha um tesouro: o Nibbles.
Com um teclado apenas, jogávamos os dois. Jogamos muito, vários dias, em horários mesmo de aula. O resto do mundo perdia o sentido frente àquela tela azul.
O mais engraçado era rir das manobras erradas do meu amigo e tentar justificar meus próprios erros como se fossem jogadas de mestre. Nem se respirava, o jogo era frenético!
Já gostava do Cris. Jogando o Nibbles, no entanto, vi que éramos também parecidos. Cúmplices, talvez. E de perto dele não sairia jamais - estava decidido. Ele comungava comigo na atividade que mais prezo na vida, isto é, me divertir.
Até que um dia um técnico magoado do laboratório de informática percebeu nossa alegria e desinstalou tudo. Por que deixar as pessoas se divertirem, não é mesmo?
Essa última lembrança me fez voltar a 2009, voltar a Lomé, ao saguão do hotel, em tempo de ver a cobrinha no celular vencer a quinta e última fase.
Será que o Cris lembra disso também? Da gente jogando e morrendo de rir um do outro? Bateu uma falta do gramado da ECA, da USP infinita. Foi difícil esconder e engolir umas lágrimas de saudade do meu amigo.
20 de junho de 2009
Afe, um bicho!
Talvez porque eu sempre tenha morado em apartamento. Talvez porque a Capitania tenha um clima mais ameno. O caso é que não, não estou habituado a conviver com tanta formiga, mosquito, bichos!O Animal Planet da vida real começou na Corte, é verdade, quando logo que cheguei vi uma coruja - alerta - num poste perto de casa, defendendo o ninho. "That can't be good", pensei.
Mas agora pense na maior lagartixa que você já viu. E multiplique por três. Foi isso que encontrei no banheiro outro dia aqui no Pays Éwé. Não tive dúvidas: peguei um rodo e dei na cara dela. Pode parecer maldade agora, mas naquele momento foi um ato extremo de sobrevivência.
É que, na verdade, sonho com uma casa minimalista, geométrica, quase sem móveis e objetos à vista. Tudo guardadinho e organizado. Tudo impecavelmente branquinho e asséptico. Um verdadeiro hospital.
Na luta diária contra os bichos, só abro exceção para o grande lagarto colorido que mora no jardim. Ele é lindo. Do tamanho de um gatinho e com listras coloridas na horizontal. Parece aquela cobra coral, sabe? Mas em forma de lagarto.
Numa tarde, batizei meu amigo enquanto ele se esquentava, glorioso, sobre o muro da varanda. Diferente dos mamíferos, diz que os lagartos precisam de um solzinho para manter adequada a temperatura do corpo. O nome dele? Rubens.
» mais fotos do Pays Éwé
7 de junho de 2009
Peruíbe
Lomé parece Peruíbe. Não como a cidade deve ser hoje, mas com Peruíbe de 25 anos atrás, quando fui passar alguns dias com a família.
Eram férias escolares. Alugamos uma casa num bairro charmoso - um pouco longe da praia, é verdade -, de ruas sem asfalto, cheias de casinhas com muros baixos e total falta de padronização.
Não sei se era bem assim. Já faz tempo. Mas guardo uma ligação afetiva forte com aqueles dias. Meu irmão e eu andávamos de bike juntos o dia todo e não brigávamos - duas novidades. Minha mãe, que usava cabelos longos naquela época, tirou folga dos cuidados domésticos na Capitania e estava radiante.
A sensação que tinha, no entanto, era de que havia só nós ali naquele bairro. Não havia movimento nas outras casas. Pareciam fechadas, talvez devido à baixa do hype de férias no litoral sul. O sol esturricava e só ouvíamos as nossas vozes e o barulho que fazíamos na rua.
Meu bairro em Lomé é assim. Sou vizinho de casas grandes e pequenas mansões. Mas não há crianças, não há cachorros, não há ruído nenhum além de mim mesmo cantando alguns versos. Quando saio na rua, vejo apenas os guardinhas em frente aos portões da vizinhança. Às vezes até experimento um "bonjour", mas o susto deles é tanto que nem respondem.
Não há cores. As casas e as paredes são brancas. O chão é de terra branca. Assim o sol explode, reflete nessa brancura toda, e rouba o pouquinho da cor que sai da vegetação. Tudo é torpor em Lomé.
Eram férias escolares. Alugamos uma casa num bairro charmoso - um pouco longe da praia, é verdade -, de ruas sem asfalto, cheias de casinhas com muros baixos e total falta de padronização.
Não sei se era bem assim. Já faz tempo. Mas guardo uma ligação afetiva forte com aqueles dias. Meu irmão e eu andávamos de bike juntos o dia todo e não brigávamos - duas novidades. Minha mãe, que usava cabelos longos naquela época, tirou folga dos cuidados domésticos na Capitania e estava radiante.
A sensação que tinha, no entanto, era de que havia só nós ali naquele bairro. Não havia movimento nas outras casas. Pareciam fechadas, talvez devido à baixa do hype de férias no litoral sul. O sol esturricava e só ouvíamos as nossas vozes e o barulho que fazíamos na rua.
Meu bairro em Lomé é assim. Sou vizinho de casas grandes e pequenas mansões. Mas não há crianças, não há cachorros, não há ruído nenhum além de mim mesmo cantando alguns versos. Quando saio na rua, vejo apenas os guardinhas em frente aos portões da vizinhança. Às vezes até experimento um "bonjour", mas o susto deles é tanto que nem respondem.
Não há cores. As casas e as paredes são brancas. O chão é de terra branca. Assim o sol explode, reflete nessa brancura toda, e rouba o pouquinho da cor que sai da vegetação. Tudo é torpor em Lomé.
17 de maio de 2009
Beira d'água
Que curioso ir para o terceiro continente em menos de uma semana. Meu sono tem estado confuso. Se fico parado um momento - puff - caio no cochilo.
No voo de Paris para Lomé, abri os olhos num certo momento e vi que sobrevoava as praias do Mediterrâneo. Novo cochilo e, quando acordei, estava acima do Saara. De pronto lembrei do verso de "Voyage, Voyage" que descreve um belo passeio acima daquele deserto. Não é que é legal mesmo!
Uma hora depois, a vegetação mais densa sinalizou a aproximação do Golfo da Guiné. Pousei no simpático aeroporto de Lomé já de noite. Estava quente, mas não tanto.
Seis meses atrás nem sonhava com a possibilidade de vir para cá. Acho esse um dos mais incríveis aspectos da carreira de exilado, que dizer, o inusitado, a aventura.
E que coisa mais surreal. Logo ao pousar, a tripulação da Air France ligou a música ambiente enquanto os passageiros se aprontavam para o desembarque. Começou a tocar alto aquele verso do U2 "I have climbed the highest mountains, I have run through the fields".
Puxa, isso me emocionou de verdade! A música me lembrou o porquê eu estava ali: because I still haven't found what I'm looking for.
No voo de Paris para Lomé, abri os olhos num certo momento e vi que sobrevoava as praias do Mediterrâneo. Novo cochilo e, quando acordei, estava acima do Saara. De pronto lembrei do verso de "Voyage, Voyage" que descreve um belo passeio acima daquele deserto. Não é que é legal mesmo!
Uma hora depois, a vegetação mais densa sinalizou a aproximação do Golfo da Guiné. Pousei no simpático aeroporto de Lomé já de noite. Estava quente, mas não tanto.
Seis meses atrás nem sonhava com a possibilidade de vir para cá. Acho esse um dos mais incríveis aspectos da carreira de exilado, que dizer, o inusitado, a aventura.
E que coisa mais surreal. Logo ao pousar, a tripulação da Air France ligou a música ambiente enquanto os passageiros se aprontavam para o desembarque. Começou a tocar alto aquele verso do U2 "I have climbed the highest mountains, I have run through the fields".
Puxa, isso me emocionou de verdade! A música me lembrou o porquê eu estava ali: because I still haven't found what I'm looking for.
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